sábado, 2 de julho de 2011

Celebrando a Vida

Enzo, meu anjo, hoje vivi momentos que me deixaram em estado de graça tão plena, que até agora me pego anestesiado diante de tanta alegria. A ideia veio da sua tia Elly, eu topei a parada e outros loucos também resolveram encarar. O que seria apenas um limitado encontro de primos tornou-se uma festa de verdadeiros irmãos e nos encontramos em minha casa para festejarmos o Amor e a Amizade... Um dia sua tia Ci me falou: "Daniel é meu grande amigo. Daniel é meu irmão".

A morte tem sido, ultimamente, uma das minhas grandes mestras. Em especial, a “Viagem” de Dida. Diante da vida sempre serei um eterno ignorante e é essa a minha sorte, pois sempre estarei aberto a aprender mais, mudar meus conceitos, ampliar horizontes e evoluir. Com a partida de Dan, aprendi ou ratifiquei algumas coisas:

1.       Quando vi o corpo do meu irmão sem vida naquele caixão, pensei: “Que onda! Ele correu tanto para ter coisas, para comprar coisas, para manter um padrão e agora essa matéria só está levando essas roupas e esses sapatos, que são apenas sobras, porque o cara nasceu nu!” Ratifiquei que quanto mais eu me desapegar dos bens matérias, dos “teres”, mais leve e menos estressante será minha existência - que não passa de uma ilusão transitória e frágil.

2.       Durante os dias que fiquei na angustiante espera pela cura ou pelo desencarne dele, a presença de todos os que estiveram conosco me fez pensar que o valor e o bem maior em minha vida são o carinho e o amor que recebi deles. Eu fui confortado, mimado, acolhido, consolado e isso me predispôs a me interessar muito mais pelo fato de tratar bem o ser humano, de cuidar do ser, de acolhê-lo e ampará-lo, de sair do meu umbigo porque coração foi feito para amar. A passagem de meu irmão está me ensinando a resignificar minha vida.

3.       Aprendi que preciso estar mais perto de quem amo, pois não sei o dia que essa pessoa vai partir e não quero me encontrar com quem quero bem só para curtir enfermidades e sepultamentos. Quero o sabor da rotina, quero o gosto de festa, quero ver nascerem novas gerações, quero ver as crianças crescendo e acompanhar tudo isso. Minha vida é cheia de compromissos, mas sempre caberá mais um quando o assunto for Amor.

4.       Todas as manifestações de carinho dos amigos, dos parentes, dos Irmãos Maçons e até dos adversários no momento do translado do corpo para o cemitério nada mais foi que a colheita de 29 anos bem vividos, bem partilhados e tenho certeza que isso encheu meu mano de alegria.

5.       Por fim, Enzo, viva intensamente. Ame, lute, cometa seus próprios erros, comemore seus acertos, apaixone-se, supere-se. Seja inteiro e intenso em tudo o que fizer, respeite a si mesmo e ao próximo – e desrespeite também se necessário – pois aí quando chegar a sua hora de dar o zig você terá uma linda colheita e se orgulhará de tudo o que terá feito quando olhar para trás.

6.       Hoje estamos escrevendo uma nova história. Hoje estou aqui reencontrando toda essa gente bonita que amo. Hoje estou aqui estreitando laços. Hoje estou aqui conhecendo pessoas que amarei. Estamos celebrando a vida, estamos em nome de Dida, em nome de nós, num só coração, num só sentimento e espero que fiquemos mais próximos, pois não há dor maior do que saber que poderíamos ter estado antes e não o fizemos. Espero que não sejam necessárias mais perdas para que saibamos valorizar o que há de mais precioso por aqui: O Amor e a Amizade que nos une agora e para sempre. VIVA DANIEL!

domingo, 26 de junho de 2011

Meu Cúmplice


Enzo, meu amado, olho nos teus olhos e vejo o tesouro que você é. Vejo o seu sorriso e enxergo sua alma... Ela é linda e pura! Penso comigo: O que fez esse menino corajoso optar por uma experiência tão delicada? A gente sabe que seu pai está vivo, porém não está mais aqui... Para mim, Enzo, você é um dos caras mais destemidos que conheço e sei que vai vencer todos os obstáculos que quiser. Parabéns por ser quem você é.

Infelizmente ainda não posso estar tão perto de você, mas sei que nosso tempo chegará. Enquanto isso, à distância, mando pra você o meu amor, o meu carinho e faço o que for possível, do meu modo, pra te ajudar.

No dia 22 de junho de 2011, sonhei com seu pai. Ele estava todo bonito, vestido de branco e com uma mala bege na mão. Olhou para mim e sorriu. Pegou as chaves de um carro e se dirigiu a uma Pick Up. Entrou no veículo, deu a partida e se foi por uma estrada bonita, rumo ao sol que nascia. Acordei emocionado!

Durante o desjejum, partilhei com sua tia Cisete o meu “sonho”. Imaginamos que significava ele estar, naquele momento, comunicando sua partida de uma vez por todas. Oramos e nesse momento, sua avó Marinice chegou. Pedimos por você, por sua mãe e por seu pai. Foi quando novamente senti aquela pressão na nuca e sabia exatamente do que se tratava. Mais uma vez ele falou através de mim e segundo sua tia Ci e sua avó Mari, disse que estava mesmo indo, pois o que havia deixado pendente já resolvera. Pediu que não nos entregássemos à tristeza porque isso só o atrapalharia e que sempre que tivéssemos uma recaída, rezássemos por ele e o visualizássemos envolvido e preenchido pela Luz.

Ratificou o amor dele por você e deixou transparecer certa dor por estar deixando essa vida. Coisa normal pra quem viveu tão intensamente!... Trocou algumas palavras com sua avó, com sua tia e disse que confiava na força da sua mãe, pois sabia que ela venceria todas as adversidades. Por fim, concluiu sua comunicação deixando um abraço fraterno para todos os entes queridos e dizendo que voltaria quando pudesse.

Pediu a benção a sua avó, despediu-se de sua tia e se foi...

Quando saí do transe, estava banhado em lágrimas. Sentia uma dor dupla: a dor dele por estar finalmente se desprendendo de tudo isso e a minha por estar vendo meu mano amado finalizando o processo da viagem.

Minha mãe ficou feliz por esse contato. Falou-me que era impressionante a minha metamorfose quando ele me tomava! Disse-me que eu mordia a língua e coçava os olhos como ele. Cisete estava chorando também...

Sua avó então comentou que antes do acontecido, estava em casa e de repente sentiu uma vontade enorme de ir me ver. Chegou exatamente na hora da nossa oração matinal e aí se deu o contato. 

Mais um jogo delicioso do velho Dida. Através de várias linhas, ele vai tecendo sua trajetória e suas comunicações amorosas para conosco.

Quando liguei pra sua tia Mile e contei o fato, o chororô “comeu no centro” e ela agradeceu a Deus por eu poder ter essa facilidade de me comunicar com ele e trazer “notícias do mundo de lá”.

Desliguei o celular e pensei: Por que ele me escolheu?

A resposta foi imediata: Porque sempre fomos cúmplices um do outro e aí vieram cenas lindas de nós dois:

Quando comecei a estudar e a praticar magia, era ele quem me levava de carro para fazer obrigação no mar, nas pedreiras, nas montanhas, no mato, nas cachoeiras e em todos os lugares que você pudesse imaginar. Sempre ele estava disposto a me ajudar e em nenhum momento em que eu o solicitei, me faltou.

Daniel sabe de toda a minha vida. Com ele eu nunca tive segredos. Com ele partilhei todos os meus casos, loucuras, delitos, experiências, sucessos, fracassos, medos, superações... Ele nunca me recriminou por nada e olha que seu titio aqui já aprontou feio... Em Dan, sempre tive mais que um amigo que me acolhia, que me respeitava, que me amava e que mesmo quando ouvia minhas confissões mais secretas e escabrosas, me abraçava e dizia: “Tem nada não, véio... Depois passa”.

Assim como ele conhece muito bem minhas sombras e minha luz, eu conheço as dele e isso fez com que nos tornássemos genuínos cúmplices, um do outro. Jamais nos condenamos pelas merdas que tenhamos feito. Em diversos momentos, tanto eu como ele, não concordamos com certas coisas, todavia jamais deixamos de nos compreender e de nos apoiar.

Muitas vezes, ele se desabafou comigo. Muitas vezes o vi chorar e o acolhi em meus braços até ele colocar tudo pra fora e se sentir melhor... Seguramos muitas barras, um do outro, e em momentos dolorosos, soubemos nos apoiar.

Sempre que nos víamos, tínhamos a necessidade de nos isolarmos um pouco dos outros. Naquela hora, o mundo era apenas eu e ele... Daniel é o melhor cúmplice, amigo e irmão que alguém pode ter e se eu recebi esse presente, é porque sou um homem privilegiado. E se mesmo sem corpo físico, ele recorreu a mim, sou humildemente, um irmão honrado e agradecido.

Beijo, meu menino. Seu pai é meu ídolo.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Óculos


Enzo, meu bom, uma das coisas que me chamava muito a atenção com relação a seu pai era a obstinação do cabra. Muitas vezes, ele empacava que nem jegue, quando queria uma coisa, mesmo que seu desejo fosse “aparentemente” o mais irracional que se possa imaginar. A história abaixo é apenas um exemplo desse comportamento riquíssimo e pra lá de interessante. Saca só...

Há anos atrás, sofri um acidente em Salvador. Fui atropelado por um carro e quando ele me arremessou no asfalto, tive uma fratura no braço e alguns ferimentos. No momento em que caí, bati com a face esquerda no solo e tive uma lesão próxima ao olho – os óculos viraram nada.

Dias depois de todos os socorros devidos (nunca me esqueço da força do seu tio Cleber Fonseca, que estava próximo a mim na hora do acidente) fomos eu, meus pais e Daniel ao consultório do nosso amigo oftalmologista Dr. R., em Santo Antonio de Jesus, pois morávamos em Nazaré, para vermos se houve algo grave com meu olho esquerdo.

Dr. R., como sempre, foi muito gentil conosco, tratou-me com atenção e diligência, ouviu meu relato e pôs-se a me examinar.

Graças a Santa Luzia, não houve danos em minha visão. Só precisaria mesmo comprar óculos novos.

Foi aí que nosso amigo médico quis também examinar a visão de Dida. O guri gordinho se sentou todo tirado na cadeira do “oftalmo” e os testes começaram.

Ao final deles, Dr. Roberto disse para Dida:

- Seus olhos estão ótimos. Tá tudo bem com você.

- O senhor está dizendo que não preciso de óculos?

- Isso mesmo.

Daniel fechou a cara.

Despedimo-nos e nos retiramos do consultório.

Quando nos demos conta, Daniel estava se acabando de chorar:

- O que foi, Dan?-Perguntei.

- O que foi, meu filho? – Indagou minha mãe.

- Esse médico da “misera”! Esse Filho da P... tá errado. Eu quero repetir o exame. Eu quero usar óculos. Ele não sabe de nada.

- Mas Dani – argumentou meu pai – Que negócio é esse, desgriba? Ele é o melhor oftalmologista que conhecemos. Ele fez tudo o que podia fazer para te examinar. Você ao invés de ficar contente porque não precisa de óculos, fica assim... Nunca vi isso.

- Quero saber de nada não, meu pai! Me deixe, viu. Eu quero usar óculos. Eu vou usar óculos e não se fala mais nisso!

- Mas você não tem nada... – minha mãe ensaiou falar e foi cortada imediatamente por Dida.

- Mesmo eu não tendo nada, preciso usar óculos e não se fala mais nisso.

Rimos mudos e discretos e não se falou mais nada.

A Homenagem da Cards Service

Enzo, por onde seu pai passou, deixou um rastro de amizade, carinho, competência e alegria.

Veja quão bela é a homenagem feita pela galera da Cards Service quando ele deu o zig.

A gente não deixa de ficar triste com a ausência física dele, porém é confortante estar ratificando, a todo momento, o fato de que seu Espírito vive em todos nós.

Amo demais esse cara...

Para sempre, Daniel.


El atirador de facas


Enzo, minha criança, lembro-me de algumas passagens inusitadas que tive a honra de viver com seu pai. Na verdade, tudo com Dan sempre foi inusitado: ele,em si; a vida com ele; as coisas dele; a loucura dele; a generosidade; o companheirismo; as corrupções... Seu pai tem uma ética própria e a meu ver, é exatamente isso que faz dele um homem especial.

Cada momento ao lado de Daniel foi, é e sempre será algo mágico, no sentido mais puro da palavra, porque ele é único.

Feliz de mim, de você e de quem pôde conviver com ele mais de perto.
Vamos à história...

Dida ainda era criança e Enilton Leal, nosso grande amigo Ninil, sempre estava lá em casa – e nós na dele.
Éramos todos uma grande família: nós, Ninil, Edilton (mano dele que também deu o zig), os pais dele (grande Dute, que também deu o zig), os nossos – uma festa.

Um dia Ninil estava perturbando Dida, mexendo com o sacaninha, enchendo o saco dele e o menino só dizia com cara de brabo:

- Pára, Nil. É melhor parar.

E Ninil nada de parar. Abusava, abusava e abusava. Até que Dida olhou pra ele com aquele olhar de Charles Bronson emputecido e falou:

- Se você não parar, vou lhe atirar uma faca.

- Qual é a sua, Dani? Vá se f... Você não é homem pra me rumar uma pedra. Quanto mais uma faca.

O guri deu aquela risada sacana e entrou em casa. Eu e Ninil estávamos do lado de fora,conversando e já até tínhamos esquecido de Daniel.

Então se deu uma aparição inesperada: O próprio empunhando a faca da cozinha! Eu e Enilton ficamos com os c... no ponto.

- Dan, que brincadeira é essa? – Perguntei tenso (morrendo de medo!!!)

- É pra esse sacana ver que sou o homem.

Dito isso, o “brodi” arremessou a faca contra nosso amigo e a sorte foi que Nil era ágil e conseguiu se desviar da arma a tempo de não ser atingido pela mesma. A faca se cravou no solo. Eu e Enilton ficamos bestificados com a coragem daquele menino-homem e mudos, constatamos que era um cabra honrado se impondo diante de outro mais velho e mais forte. A partir daquele dia, tanto nós dois, como outros que souberam da história, nos tornamos mais cautelosos quando o assunto era sacanear o velho Dida. Ele nos ensinou a dar limites.

 Daniel sorriu triunfante e entrou em casa.

Eu e Enilton ficamos com cara de otários.


terça-feira, 21 de junho de 2011

A Presença de Dida

Enzo, meu nego, saca só a comunicação que rolou entre Timile e Tinessa, num dia em que Tinessa estava nada bem e providencialmente encontrou uma mensagem escrita por seu pai, no final de 2010.


Mille,

Boa noite!

Hoje acordei reclamando de tudo. Sabe aquela pessoa chata, triste, melancólica? 
Pois é, euzinha!
Agora à noite, estava futucando algumas coisas e encontrei o que nem eu mesma sabia que procurava. Um texto de Daniel, para a galera da Cards no final de 2010.
Nega, dá só uma lida no que ele deseja para todos em 2011.
O que mais mexeu comigo, e me faz perceber que estou sendo egoísta, foi esse trecho do texto:

"A vida nos da todas as possibilidades para nos superarmos, ela nos dá no dia a dia a possibilidade de darmos mais de nós mesmos, de crescermos. Deus espera muito mais de nós, em todos os aspectos."   


Emocionada, vejo que a vida é um grande mistério, neste dia que estou, Deus me leva a visitar o site da empresa...para continuar seguindo o que meu amigo e chefe tem para me ensinar.

Agora, Enzo, segue abaixo o texto de Dan, na íntegra:

"Tecer  comentários  sobre  o  ano  de  2010  nada  mais  é  do  que 
envolver-se  em  quatro  aspectos  básicos  que  em  suma  podem  fazer  uma 
rápida retrospectiva. Adaptação, Força de Vontade, Transpiração e Paixão.

  Tivemos que nos adaptar a diversas variáveis surgidas no curto inter-
valo de tempo. Tivemos que nos adaptar ao rumores do mercado, às mudan-
ças  internas,  à  necessidade  de  desenvolver  formas  diferentes  de  atuar, 
pensar... Diante de um ambiente algumas vezes incerto  se não tivéssemos 
tido ao nosso lado a Força de Vontade em fazer o negócio acontecer certa-
mente o que não era difícil passaria a ser. Tivemos que suar, transpirar... Muito 
mais transpiração do que inspiração. E o interessante que no ritmo frenético 
do trabalho os momentos de insight, as ocasiões de se reinventar, ashes de 
inspiração surgiam... E perante tudo isso, nada seria possível se não houvesse 
a Paixão... Paixão pelo trabalho, paixão pela área em que atuamos, paixão em 
servir, em ajudar a fazer as coisas acontecerem, e principalmente paixão pela 
empresa.

  O que esperar de 2011? Tomara que este novo ano venha a nos pedir 
muito mais do que podemos dar, pois é dessa forma o aprendizado acontece 
de fato. Que em nenhum momento nossos mais sublimes sonhos caiam no 
esquecimento.  Tê-los  sempre  em  mente  nos  ajuda  a  seguir  em  frente. 
Tropeços  vão  acontecer,  algumas  falhas  idem,  se  desapontar  com  outrem 
sem dúvida.  E  tudo  isso  é  mais  do que necessário.  A  vida  nos  da  todas  as 
possibilidades para nos superarmos, ela nos dá no dia a dia a possibilidade 
de darmos mais de nós mesmos, de crescermos. Deus espera muito mais de 
nós, em todos os aspectos.

  Portanto,  meus amigos,  espero  que em 2011,  a  vida  espere  muito 
mais de nós. Tenho certeza que teremos sucesso! Um Formidável 2011 Para 
Todos Nós!"

Luiz Daniel de Jesus
Gerente Regional




sábado, 18 de junho de 2011

Nossas Eternas Infância e Adolescência

Enzo, meu menino lindo, sua tia Mile é uma figura...

Ela me mandou um texto de sua autoria que me tocou profundamente. É super visual e me fez viajar no tempo e acompanhar todas aquelas cenas de nossas vidas com tanta nitidez, que tive a sensação de estar operando em várias épocas ao mesmo tempo...

Simplesmente lindo!
Apaixonante!

Conheça mais um pouco desse homem que te ama loucamente: seu pai...

Capitulo I
                Consegui parar e escrever minha contribuição para o Livro: O Presente De Enzo. Procurei forças, coragem e voltei ao passado... Num dia chuvoso do dia 22 de agosto de 1981, vi minha mãe arrumando as sacolas, com pequenos objetos para um bebê que estava na sua barriga. Ela estava enorme, com pernas bem inchadas, o rosto bem redondo e os cabelos lisos caindo sobre seu rosto branco e um pouco cansado. Por diversas vezes passava suas mãos pela barriga e respirava fundo, eu me aproximava, beijava e falava coisas próximo daquela barriga para aquele bebê que não consigo me lembrar.  Minha avó Benedita estava lá em casa, e recordo-me dela falando: “ – Esse daí vai ser chorão, nascendo assim, em dia de chuva”. Ficava imaginando o choro dele ecoando pela casa e a certeza que tudo ia mudar me assustava e ao mesmo tempo me deixava muito alegre.  Tínhamos um fusca verde e só me lembro de ver minha mãe entrando nesse fusquinha ao lado de meu pai e indo para o Hospital Gonçalves Martins, lá em Nazaré. O bebê que estava na barriga de minha mãe: Luiz Daniel Santos de Jesus. Eu tinha apenas 4 anos de idade e Tony 8 anos como irmão mais velho e parceiro de traquinagens. A partir daquele dia em diante passaríamos a ser três.
                Daniel chegou em casa dois dias depois, tinha tanto cabelo. Minha curiosidade para ver aquele rosto rosado era maior do que tudo no mundo, minha mãe sorria muito e minha avó Benedita a segurava e mandava que ela se acomodasse um pouco. Consegui ver aquele olhinho puxado, uma boca bem vermelha, um nariz que o boi pisou, (marca registrada da família) era ele, meu irmãozinho, enrolado num monte de paninhos, acho que verdes. Olhar aquele ser pequenino se mexendo fazia parte do meu dia-a-dia, queria ajudar, queria dormir no berço com ele, queria que minha mãe colocasse as fraldas dele em mim também. Uma vez experimentei o leite materno e fiquei preocupada: Como era que ele suportava tomar aquilo com o gosto tão ruim?! Quando minha mãe não estava olhando, pegava a chupeta dele e colocava na minha boca, coisa de criança mesmo.  O tempo foi passando, eu Tony e Dani crescendo.
                Quando ele ainda era bebê de poucos meses, ele apareceu com uma inflamação nos olhos e me lembro de minha mãe pegando a água da lima, colocando numa vasilha e misturando com outro liquido e limpando os olhinhos dele, eu ficava na ponta do pé e ajeitava o cortinado que o protegia de mosquitos. Quando minha mãe deu as costas, peguei uma banda da lima e passei no rosto dele para que ele ficasse logo bom. Ele caiu no choro “coitado”, minha mãe voltou-se para o berço correndo e quando viu a cena ficou atônita, só me lembro dela falando: “Minha filha, o que você esta fazendo?”.  Eu respondi: “Colocando remedinho no meu irmão, mãe”.  Ela o retirou do berço às pressas, a lima caiu da minha mão e ele berrava cada vez mais alto e ficava cada vez mais vermelho. Depois desse fato, minha mãe ficou mais atenta comigo ao lado dele e policiava cada movimento meu próximo do pequeno que crescia.
                Dani tinha uma mania quando bebê: colocava o dedo no umbigo, a chupeta entre os lábios e a parte de baixo da gengiva e ficava fazendo um som assim: “goli-goli-goli-goli”, até pegar no sono. A depender do sono, ele espaçava esse barulho e o som voltava ainda mais forte, era como se não quisesse dormir. De repente fazia “goli” e os olhinhos fechavam e a mão que estava futucando o umbigo parava de se mexer. Mas esse “goli-goli”  o acompanhou por muitos anos e o dedo dentro do umbigo também. Demorou para ele parar de fazer xixi na cama e várias vezes, ele fazia xixi na dele e vinha dormir comigo. Perdi as contas das vezes que acordava toda “mijada”...
                Quando ele começou a aprender a falar, lembro-me das primeiras palavras que eram boua (bola), gol, cau (carro), boi...  ele aprendeu a me chamar de Bibe. Desta maneira ele me chamou até ficar maiorzinho, por volta dos 07 a 08 anos ele passou a me chamar pelo nome todo e só quando queria alguma coisa que ele vinha com o “Bibe”... Sempre genioso e brincalhão, passávamos as tardes vendo TV e brigando por causa do canal: ele só queria assistir Jaspion e brincar de luta, ele dizia que eu era Namaguiderás e vinha com pontapés e golpes de caratê em cima de mim. De vez em quando eu “descia a madeira” (porrada) e a brincadeira virava briga, era uma loucura! Cleonice, a babá que tomava conta da gente, ficava louca. A gente brigava pelo lugar no carro, pela batata frita na mesa, pelo nhoque de D. Dalva pelo ventilador, pelo colo da nossa mãe, pelos brinquedos, por quase tudo. Daniel era aquele tipo de menino abusado, que não parava quieto.
Tomamos juntos muito mingau de Cremogema e Maizena quando davam três horas da tarde. Para matar nossa fome, o mingau era colocado num prato de sopa fundo, que segurava a fome da gente até a hora do jantar.  Adorávamos quando tinha “cavaco” (um tipo de massa tipo do pastel, frita passada no açúcar e na canela em pó”). Muitas foram as brigas para ver quem comia mais...
Nós tínhamos um cachorro chamado Boomer, que era a paixão dele. Dani sempre gostou muito de cães e um dia, ainda no berço, ele inventou de jogar Boomer de cima para baixo do berço. Quando eu e Tony ouvimos o choro do amigo fiel (caimmmmmmmm) saímos correndo e encontramos Dani se acabando de rir no berço. Tony ficou furioso, a gente pensou que o pobre cachorro tinha quebrado a pata e fomos em busca de um Veterinário, antes de sairmos, Tony todo chateado falou:” Se ele tiver alguma coisa ele vai se ver com a gente!”.
                Daniel tinha um hábito horrível de pegar o penico azul que ele tinha no banheiro e levar para qualquer canto da casa para fazer as necessidades dele, uma vez Boomer chegou de mansinho e acabou passando o dente no pinto dele, foi um chororô só! Sangrou até um pouco, minha mãe ficou louca, mas não houve maiores problemas, a prova disso é Enzo ai!
                Teve um período que minha mãe matriculou a gente na aula de música, a professora era a mãe de Misael e Marcelo. Daniel estava tentando aprender a tocar teclado e eu, violão. Tony já tocava violão e a gente queria aprender algum instrumento também. Ele até tocou na AABB uma vez, acho que numa festa dos Dias dos Pais, foi lindo! Ele tocava mordendo a língua de um lado para o outro e isso me divertia muito.
                Daniel, quando brigava comigo, descontava nas minhas fitas cassete que eu passava o domingo todo gravando, ele saía de ponta a ponta da casa com as fitas, passando pelas pernas das mesas das cadeiras, enfeitando a casa toda e se acabando de rir. Eu só faltava quebrar ele todo depois que via o estrago. Chorava de raiva.
                Todos os sábados, à tarde, éramos obrigados a participar das missas das crianças e íamos desejando que acabasse logo só para tomar o sorvete da Kibom na lanchonete de Nenéu, próxima ao Banco do Brasil. Às vezes, íamos comer torta com refrigerante na Esquina 21 e no Ponto 10, os deliciosos sanduíches.
                Recordo do caminho que fazíamos voltando da Escolinha Novo Horizonte de Tia Tan, a “música da fome” que tocava na Voz do Cruzeiro. Quando chegava meio-dia e chegávamos  em casa parecendo bichos de tanta fome: “Padroeira, Asilo Santo”...
                Nosso vovô, José Pedro de Jesus, pai de Curió, chamava Dani de Dadá e todas as vezes que chegávamos na casa dele, ele perguntava: “ Dadá, quer batata?”  e assanhava a cabeleira preta dele. Meu avó tinha mania de fazer quadros e fazia no fogo, uma cola, tipo  goma, ele pegava e dizia que ia colar no meu cabelo e não ia sair mais.  Ele acobertava meu avô roubando comida da cozinha antes de ficar pronta e na época quando meu vovô foi terminantemente proibido de beber qualquer coisa alcoólica, ele roubava o conhaque e o uísque.
                Ele adorava futebol e na época Dida era o goleiro do momento. Ele adotou esse apelido para ele e daí surgiu “Didael” a mistura de Dida com Daniel.
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                Daniel adorava andar de skate e passava tardes e tardes batendo aquele objeto barulhento na varanda de casa, acabando com as pedras, uma vez, Janine, amiga de infância, inventou andar com o skate de Daniel, resultado: um braço fraturado. Ele brincava de futebol com cachorro, roía unha, já fez coleção de meleca, perdia a conta dos almanaques e álbuns de figurinhas, principalmente da Seleção Brasileira.
                Determinada época, eu comecei a namorar escondido e Daniel me chantageava para conseguir o que ele queria e não contar para minha mãe, até que um dia, “o pirralho” deu com a língua nos dentes e contou tudo a minha mãe. Eu quase levei uma surra e tive que terminar o namoro.  Fiquei de mal com aquele gordinho por dias, mas ele sempre dava um jeito de me abusar e tirar de mim um sorriso.
                Com Daniel eu bati pela primeira e única vez na vida o carro de meu pai, o famoso Chevette Cinza EP 1515, acabei com a mala do carro, e o pior, dando ré. Fui levá-lo de carro para escola - Aildes Almeida - e nem me dei conta do muro do estabelecimento de ensino, só me lembro dele com os olhos arregalados dizendo: “Se fudeu! Se fudeu!”... Sílvio (filho de Ana Luzia) que veio trazendo o carro para mim de volta para casa, eu tremia que nem vara verde.
                Foi Daniel que entregou a gente, no dia do primeiro beijo de Noélia (nossa prima-irmã). Estávamos na Ilha de Tairú e eu só me lembro da voz dele, “Mãinha, Ó Jamile ali com um monte de gente”... Estávamos eu, Elly e Nó fazendo um “Lual” com Tony tocando violão e mais um monte de amigos... Daniel nos descobriu e arruinou o primeiro beijo de Noélia. Passamos o carnaval inteiro de castigo e ele rindo da nossa cara.           
                De 20 palavras faladas, 17 eram palavrões, mas quando ele se retava!!!  Baixava uma pessoa séria e mais amadurecida do que parecia. Parecia um pai, um rei, um líder.
                Nós adorávamos dançar e por muitas vezes treinávamos os passos durante a semana para dançar nas festas da AABB no sábado. Ele dançava sorrindo e tinha um molejo retado. Ele me fazia de mola, no dia seguinte eu ficava com a coluna e o pescoço acabados.
                Para começo de história, fico por aqui, outras histórias ainda serão reveladas.

                Ao relembrar os fatos vividos, ouvir nossas vozes e barulhos de quando ainda éramos crianças, senti diversos aromas, diversas sensações, como se tivesse realmente voltado ao passado. Meus olhos se encheram de lágrimas e se misturavam às palavras na tela do computador. Vi nossas fardas escolares passarem pela minha mente, nossos cadernos, nossos brinquedos, a nossa casa de Nazaré, de Tairú... Senti a ponta dos meus dedos passarrem pelos cabelos de meu irmão e uma saudade gostosa invadiu meu ser.  Desenhei Daniel com a lembrança...  Beijei-o com minha alma, consegui ouvir sua gargalhada.
O amor que sinto por você irmão é tão grande que transborda e chega paro o nosso Enzo. Eu quero e vou fazer o que for possível e o impossível para mostrar para ele a pessoa maravilhosa que você se transformou.
Nunca falei isso para ninguém, mas chegou à hora, sabe, lá no céu tem as Três Marias... Olhava para o cima, as procurava e  pensava: Tony, Mile e Dani. (risos). Uma estrela sempre guiando a outra... Não vai deixar de ser assim. Porém agora você vai nos guiar e preparar o terreno para quando a gente tiver que ficar do seu lado.