sábado, 18 de junho de 2011

Nossas Eternas Infância e Adolescência

Enzo, meu menino lindo, sua tia Mile é uma figura...

Ela me mandou um texto de sua autoria que me tocou profundamente. É super visual e me fez viajar no tempo e acompanhar todas aquelas cenas de nossas vidas com tanta nitidez, que tive a sensação de estar operando em várias épocas ao mesmo tempo...

Simplesmente lindo!
Apaixonante!

Conheça mais um pouco desse homem que te ama loucamente: seu pai...

Capitulo I
                Consegui parar e escrever minha contribuição para o Livro: O Presente De Enzo. Procurei forças, coragem e voltei ao passado... Num dia chuvoso do dia 22 de agosto de 1981, vi minha mãe arrumando as sacolas, com pequenos objetos para um bebê que estava na sua barriga. Ela estava enorme, com pernas bem inchadas, o rosto bem redondo e os cabelos lisos caindo sobre seu rosto branco e um pouco cansado. Por diversas vezes passava suas mãos pela barriga e respirava fundo, eu me aproximava, beijava e falava coisas próximo daquela barriga para aquele bebê que não consigo me lembrar.  Minha avó Benedita estava lá em casa, e recordo-me dela falando: “ – Esse daí vai ser chorão, nascendo assim, em dia de chuva”. Ficava imaginando o choro dele ecoando pela casa e a certeza que tudo ia mudar me assustava e ao mesmo tempo me deixava muito alegre.  Tínhamos um fusca verde e só me lembro de ver minha mãe entrando nesse fusquinha ao lado de meu pai e indo para o Hospital Gonçalves Martins, lá em Nazaré. O bebê que estava na barriga de minha mãe: Luiz Daniel Santos de Jesus. Eu tinha apenas 4 anos de idade e Tony 8 anos como irmão mais velho e parceiro de traquinagens. A partir daquele dia em diante passaríamos a ser três.
                Daniel chegou em casa dois dias depois, tinha tanto cabelo. Minha curiosidade para ver aquele rosto rosado era maior do que tudo no mundo, minha mãe sorria muito e minha avó Benedita a segurava e mandava que ela se acomodasse um pouco. Consegui ver aquele olhinho puxado, uma boca bem vermelha, um nariz que o boi pisou, (marca registrada da família) era ele, meu irmãozinho, enrolado num monte de paninhos, acho que verdes. Olhar aquele ser pequenino se mexendo fazia parte do meu dia-a-dia, queria ajudar, queria dormir no berço com ele, queria que minha mãe colocasse as fraldas dele em mim também. Uma vez experimentei o leite materno e fiquei preocupada: Como era que ele suportava tomar aquilo com o gosto tão ruim?! Quando minha mãe não estava olhando, pegava a chupeta dele e colocava na minha boca, coisa de criança mesmo.  O tempo foi passando, eu Tony e Dani crescendo.
                Quando ele ainda era bebê de poucos meses, ele apareceu com uma inflamação nos olhos e me lembro de minha mãe pegando a água da lima, colocando numa vasilha e misturando com outro liquido e limpando os olhinhos dele, eu ficava na ponta do pé e ajeitava o cortinado que o protegia de mosquitos. Quando minha mãe deu as costas, peguei uma banda da lima e passei no rosto dele para que ele ficasse logo bom. Ele caiu no choro “coitado”, minha mãe voltou-se para o berço correndo e quando viu a cena ficou atônita, só me lembro dela falando: “Minha filha, o que você esta fazendo?”.  Eu respondi: “Colocando remedinho no meu irmão, mãe”.  Ela o retirou do berço às pressas, a lima caiu da minha mão e ele berrava cada vez mais alto e ficava cada vez mais vermelho. Depois desse fato, minha mãe ficou mais atenta comigo ao lado dele e policiava cada movimento meu próximo do pequeno que crescia.
                Dani tinha uma mania quando bebê: colocava o dedo no umbigo, a chupeta entre os lábios e a parte de baixo da gengiva e ficava fazendo um som assim: “goli-goli-goli-goli”, até pegar no sono. A depender do sono, ele espaçava esse barulho e o som voltava ainda mais forte, era como se não quisesse dormir. De repente fazia “goli” e os olhinhos fechavam e a mão que estava futucando o umbigo parava de se mexer. Mas esse “goli-goli”  o acompanhou por muitos anos e o dedo dentro do umbigo também. Demorou para ele parar de fazer xixi na cama e várias vezes, ele fazia xixi na dele e vinha dormir comigo. Perdi as contas das vezes que acordava toda “mijada”...
                Quando ele começou a aprender a falar, lembro-me das primeiras palavras que eram boua (bola), gol, cau (carro), boi...  ele aprendeu a me chamar de Bibe. Desta maneira ele me chamou até ficar maiorzinho, por volta dos 07 a 08 anos ele passou a me chamar pelo nome todo e só quando queria alguma coisa que ele vinha com o “Bibe”... Sempre genioso e brincalhão, passávamos as tardes vendo TV e brigando por causa do canal: ele só queria assistir Jaspion e brincar de luta, ele dizia que eu era Namaguiderás e vinha com pontapés e golpes de caratê em cima de mim. De vez em quando eu “descia a madeira” (porrada) e a brincadeira virava briga, era uma loucura! Cleonice, a babá que tomava conta da gente, ficava louca. A gente brigava pelo lugar no carro, pela batata frita na mesa, pelo nhoque de D. Dalva pelo ventilador, pelo colo da nossa mãe, pelos brinquedos, por quase tudo. Daniel era aquele tipo de menino abusado, que não parava quieto.
Tomamos juntos muito mingau de Cremogema e Maizena quando davam três horas da tarde. Para matar nossa fome, o mingau era colocado num prato de sopa fundo, que segurava a fome da gente até a hora do jantar.  Adorávamos quando tinha “cavaco” (um tipo de massa tipo do pastel, frita passada no açúcar e na canela em pó”). Muitas foram as brigas para ver quem comia mais...
Nós tínhamos um cachorro chamado Boomer, que era a paixão dele. Dani sempre gostou muito de cães e um dia, ainda no berço, ele inventou de jogar Boomer de cima para baixo do berço. Quando eu e Tony ouvimos o choro do amigo fiel (caimmmmmmmm) saímos correndo e encontramos Dani se acabando de rir no berço. Tony ficou furioso, a gente pensou que o pobre cachorro tinha quebrado a pata e fomos em busca de um Veterinário, antes de sairmos, Tony todo chateado falou:” Se ele tiver alguma coisa ele vai se ver com a gente!”.
                Daniel tinha um hábito horrível de pegar o penico azul que ele tinha no banheiro e levar para qualquer canto da casa para fazer as necessidades dele, uma vez Boomer chegou de mansinho e acabou passando o dente no pinto dele, foi um chororô só! Sangrou até um pouco, minha mãe ficou louca, mas não houve maiores problemas, a prova disso é Enzo ai!
                Teve um período que minha mãe matriculou a gente na aula de música, a professora era a mãe de Misael e Marcelo. Daniel estava tentando aprender a tocar teclado e eu, violão. Tony já tocava violão e a gente queria aprender algum instrumento também. Ele até tocou na AABB uma vez, acho que numa festa dos Dias dos Pais, foi lindo! Ele tocava mordendo a língua de um lado para o outro e isso me divertia muito.
                Daniel, quando brigava comigo, descontava nas minhas fitas cassete que eu passava o domingo todo gravando, ele saía de ponta a ponta da casa com as fitas, passando pelas pernas das mesas das cadeiras, enfeitando a casa toda e se acabando de rir. Eu só faltava quebrar ele todo depois que via o estrago. Chorava de raiva.
                Todos os sábados, à tarde, éramos obrigados a participar das missas das crianças e íamos desejando que acabasse logo só para tomar o sorvete da Kibom na lanchonete de Nenéu, próxima ao Banco do Brasil. Às vezes, íamos comer torta com refrigerante na Esquina 21 e no Ponto 10, os deliciosos sanduíches.
                Recordo do caminho que fazíamos voltando da Escolinha Novo Horizonte de Tia Tan, a “música da fome” que tocava na Voz do Cruzeiro. Quando chegava meio-dia e chegávamos  em casa parecendo bichos de tanta fome: “Padroeira, Asilo Santo”...
                Nosso vovô, José Pedro de Jesus, pai de Curió, chamava Dani de Dadá e todas as vezes que chegávamos na casa dele, ele perguntava: “ Dadá, quer batata?”  e assanhava a cabeleira preta dele. Meu avó tinha mania de fazer quadros e fazia no fogo, uma cola, tipo  goma, ele pegava e dizia que ia colar no meu cabelo e não ia sair mais.  Ele acobertava meu avô roubando comida da cozinha antes de ficar pronta e na época quando meu vovô foi terminantemente proibido de beber qualquer coisa alcoólica, ele roubava o conhaque e o uísque.
                Ele adorava futebol e na época Dida era o goleiro do momento. Ele adotou esse apelido para ele e daí surgiu “Didael” a mistura de Dida com Daniel.
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                Daniel adorava andar de skate e passava tardes e tardes batendo aquele objeto barulhento na varanda de casa, acabando com as pedras, uma vez, Janine, amiga de infância, inventou andar com o skate de Daniel, resultado: um braço fraturado. Ele brincava de futebol com cachorro, roía unha, já fez coleção de meleca, perdia a conta dos almanaques e álbuns de figurinhas, principalmente da Seleção Brasileira.
                Determinada época, eu comecei a namorar escondido e Daniel me chantageava para conseguir o que ele queria e não contar para minha mãe, até que um dia, “o pirralho” deu com a língua nos dentes e contou tudo a minha mãe. Eu quase levei uma surra e tive que terminar o namoro.  Fiquei de mal com aquele gordinho por dias, mas ele sempre dava um jeito de me abusar e tirar de mim um sorriso.
                Com Daniel eu bati pela primeira e única vez na vida o carro de meu pai, o famoso Chevette Cinza EP 1515, acabei com a mala do carro, e o pior, dando ré. Fui levá-lo de carro para escola - Aildes Almeida - e nem me dei conta do muro do estabelecimento de ensino, só me lembro dele com os olhos arregalados dizendo: “Se fudeu! Se fudeu!”... Sílvio (filho de Ana Luzia) que veio trazendo o carro para mim de volta para casa, eu tremia que nem vara verde.
                Foi Daniel que entregou a gente, no dia do primeiro beijo de Noélia (nossa prima-irmã). Estávamos na Ilha de Tairú e eu só me lembro da voz dele, “Mãinha, Ó Jamile ali com um monte de gente”... Estávamos eu, Elly e Nó fazendo um “Lual” com Tony tocando violão e mais um monte de amigos... Daniel nos descobriu e arruinou o primeiro beijo de Noélia. Passamos o carnaval inteiro de castigo e ele rindo da nossa cara.           
                De 20 palavras faladas, 17 eram palavrões, mas quando ele se retava!!!  Baixava uma pessoa séria e mais amadurecida do que parecia. Parecia um pai, um rei, um líder.
                Nós adorávamos dançar e por muitas vezes treinávamos os passos durante a semana para dançar nas festas da AABB no sábado. Ele dançava sorrindo e tinha um molejo retado. Ele me fazia de mola, no dia seguinte eu ficava com a coluna e o pescoço acabados.
                Para começo de história, fico por aqui, outras histórias ainda serão reveladas.

                Ao relembrar os fatos vividos, ouvir nossas vozes e barulhos de quando ainda éramos crianças, senti diversos aromas, diversas sensações, como se tivesse realmente voltado ao passado. Meus olhos se encheram de lágrimas e se misturavam às palavras na tela do computador. Vi nossas fardas escolares passarem pela minha mente, nossos cadernos, nossos brinquedos, a nossa casa de Nazaré, de Tairú... Senti a ponta dos meus dedos passarrem pelos cabelos de meu irmão e uma saudade gostosa invadiu meu ser.  Desenhei Daniel com a lembrança...  Beijei-o com minha alma, consegui ouvir sua gargalhada.
O amor que sinto por você irmão é tão grande que transborda e chega paro o nosso Enzo. Eu quero e vou fazer o que for possível e o impossível para mostrar para ele a pessoa maravilhosa que você se transformou.
Nunca falei isso para ninguém, mas chegou à hora, sabe, lá no céu tem as Três Marias... Olhava para o cima, as procurava e  pensava: Tony, Mile e Dani. (risos). Uma estrela sempre guiando a outra... Não vai deixar de ser assim. Porém agora você vai nos guiar e preparar o terreno para quando a gente tiver que ficar do seu lado.

8 comentários:

  1. Ô Mile, que coisa linda! Texto supremo... Nada que eu diga conseguirá expressar o que realmente sinto agora. Te amo.

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  2. "Ele tocava mordendo a língua de um lado para o outro e isso me divertia muito."
    Mania clássica dele.

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  3. Uma emocionante viagem no tempo. Como é bom recordar e poder registrar coisas como essas.
    Texto sensível e lindo. Enzo merece!

    bjs, amigos!

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  4. Nem dá pra falar nada. Este blog é a melhor idéia que vocês poderiam ter tido. Dani vive em cada história, lembrança, momentos guardadinhos nos corações de tantos que amavam esse Sacaninha.

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  5. Esse baú de recordações é belíssimo, nos faz transcender...

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  6. É verdade, Jorginho, amor assim fica eternizado em nossos corações. Viva Dani!!!

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  7. KKKKKKKKKKKKKKKKK

    MEU AVÔ, JA MEIO GAGÁ.. TB ME CHAMAVA DE DADÁ
    ME CONFUNDIDO COM DANIEL!!! ASHAUASHUA
    E P/ PIOAR, TB HOUVE UM EPSODIO EM QUE EU
    PEGUEI ESCONDIDO UM COPO CHEIO DE ALGUMA BEBIDA ALCOOLICA PARA DAR A ELE...
    SÓ QUE MEU PAI DEU O FLAGRANTE!! AHSAUSHAU

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